Poema "Na Cova da Moura"

En filas ordenadas regresamos
Y cada
noche, cada noche,
Mientras hacemos
el camino

Octávio Paz, La Centena, 1972

 

Na Cova da Moura

 

 

há crianças há mães há pais há avós

há crioulo nas vozes que ecoam como cânticos

há sorrisos que esperam peregrinos

há mãos que labutam na espessura do dia da noite

há dedos gretados pela árdua matéria

 

 

Na Cova da Moura

 

 

há claros gritos sufocados à nascença

há desejo da terra firme lá longe

na distância que o mar separa e o tempo une

no concreto chão onde se mora

há horas em que só o silêncio chora

 

Na Cova da Moura

 

há crianças que pedem afeto aos peregrinos

abraçam as mãos de quem as olha

enlaçam seus rostos em nossos rostos

sorriem sempre sorriem e ensinam

a olhar um outro mundo

 

 

Na Cova da Moura

 

 

há festas barcos dançando em cinturas pelas ruas

rituais da origem reiterados pelo destino

há batuques que ecoam aquela África

há danças em que só o corpo fala

há mulheres que perdem filhos no asfalto

há mulheres que vestem seus trajes e sobem ao palco

e com o som que percutem nas tchabetas (batuques)

sua alma retempera e renova sua ação

 

 

Na Cova da Moura

 

 

há cânticos que dizem vidas duras

há ecos de crioulo pelas ruas

há sorrisos mãos e dignidade

 

 

Gisela Ramos Rosa

04-12-04

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