A ARTE DO BATUQUE: DE “OFFENSIVO DA BOA MORAL” (EDITAL DE 18661) AO RECONHECIMENTO DA FORÇA TERAPÊUTICA E ARMA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA (DOMÉSTICA)

“Um questionamento sobre as origens da pobreza e exclusão social, para além da afirmação dum caminho para o futuro.”

 

Finka-Pé – Do nascer ao pôr do sol, é um espectáculo com guião e encenação da actriz Amélia Videira, parcialmente documentado no filme de Raquel Castro, Finka-Pé – Contos de mulheres que dançam pela liberdade. “Com este espectáculo, dá-se a conhecer a música e a dança, através de um roteiro que nos conduz pelos meandros de um dia de trabalho e cumplicidades várias no feminino

“A destruição do passado, ou antes, dos mecanismos que ligam os contemporâneos às gerações passadas, é um dos fenómenos mais característicos e mais misteriosos do fim do curto século XX”, assinalava o historiador britânico Eric Hobsbawn. Viveríamos agora “numa espécie de presente permanente”, uma espécie de nihilismo, de desvalorização de sentidos, de ausência de fundamentos, de depreciação dos valores tradicionais.

 

De ‘offensivo da boa moral ao reconhecimento da força terapeutica e arma na prevenção da violência doméstica, foi o caminho percorrido pelas Mulheres do batuque do grupo Finka-Pé, que “surgiu em 1988 no Bairro Alto da Cova da Moura, no âmbito das actividades desenvolvidas pelo Moinho da Juventude”2.

É inesgotável o contributo do batuque - um dos géneros mais representativos do património musical da Ilha de Santiago, tendo referências desde o século XVII -, para transferir princípios e valores entre gerações. Através dele, as mulheres afirmam-se, cultivam a auto-estima que deriva não apenas do exercício reflexivo que a arte implica, como do reconhecimento desse crescimento pelos filhos e pela comunidade, capaz de atenuar o recurso ao machismo como afirmação dos mais excluídos e, por essa via, constituir simultaneamente apoio às vítimas e dissuasão dos agressores na violência doméstica. Constatou-se a existência de capacidades a nível da arte performativa e o poder da comunicação através da arte, capaz de enraizar, de criar um campo de referências fundamentais ao desenvolvimento dos indivíduos. “As batucadeiras estão conscientes da plataforma de comunicação/diálogo e dos efeitos terapêuticos proporcionados pelo batuque. Em conjunto com Greet Wielemans, musicoterapeuta, e Lieve Meersschaert, psicóloga, conseguiram ‘identificá-los’ no fim dos anos ´90: (…) Nos seus cantos, as mulheres exteriorizam os seus problemas/alegrias, de formas simples, que partilham com as outras. O partilhar das frases entoadas e o repetir dessas frases, como se fosse uma “mantra”, ajuda a gerir os problemas, as preocupações, as angústias, os medos ou a intensificar a alegria do grupo (Musicoterapia); O batuque funciona como prevenção da violência doméstica: o partilhar dos problemas permite um processo de conscientização, de recuo e de reflexão.”3

Finka-Pé – Do nascer ao pôr-do-sol - No Auditório do Centro Cultural Malaposta, dia 12 de Maio de 2013, às 16h. Entrada livre.

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1 Boletim Oficial Nº.13, de 31 de Março de 1866 (Estabelece a proibição do Batuque)

2 Adaptação de um texto do etnomusicólogo Jorge Castro Ribeiro em “Inquietação, memória e afirmação no batuque: música e dança cabo-verdiana em Portugal”, doutoramento na Universidade de Aveiro em 2012.

3 Greet Wielemans e Lieve Meersschaert
Associação Cultural Moinho da Juventude - Travessa do Outeiro, n.º 1 Alto da Cova da Moura 2610-202 Buraca, Amadora Tel.214971070 FAX:
214974027 This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it. www.moinhodajuventude.pt

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