FINKA-PÉ: Um Grupo de BATUQUE CABOVERDIANO

O Grupo de Batuque Finka-Pé surgiu em 1988 no Bairro Alto da Cova da Moura, concelho da Amadora, no âmbito das actividades desenvolvidas pela Associação Moinho da Juventude. Inteiramente formado por mulheres cabo-verdianas que habitam no bairro, este grupo dedicou-se à prática do batuque por razões de vária ordem: divulgação da cultura cabo-verdiana, auto-valorização das suas componentes e manutenção das tradições do seu país.

Antes da fundação do Grupo, e numa linha de fidelidade à tradição cabo-verdiana, no bairro faziam-se já batuques - ou 'batucadas' como é também costume dizer-se - em ocasiões festivas da comunidade: casamentos, baptizados ou outras reuniões familiares. No entanto, não havia entre os cabo-verdianos uma consciência do valor cultural do batuque.

A direcção do Moinho da Juventude apoiou por todos os meios a formação do Grupo de Batuque Finka-Pé e a sua institucionalização. A partir das primeiras actuações, e graças ao alto nível artístico das componentes do Grupo, começaram a surgir os convites para actuar fora do bairro; hoje torna-se difícil dar resposta a todos os convites que lhe são dirigidos, até porque as mulheres que o compõem, trabalham e têm também a sua vida familiar.

Duas grandes áreas culturais estão na génese da cultura cabo-verdiana: por um lado a cultura europeia, transmitida pelos portugueses que descobriram e colonizaram o arquipélago e, por outro, a cultura africana, recebida através dos inúmeros escravos que para lá foram levados. Desde sempre, no entanto, uma e outra influência se fizeram sentir mais fortemente nesta ou naquela ilha, em particular nas duas principais, Santiago e S. Vicente, onde é nítida a diferença das influências culturais marcantes.

S. Vicente com os seus géneros musicais característicos, a Morna e a Coladeira, denuncia uma maior influência europeia (ou mesmo brasileira) por efeito dos contactos de tráfego marítimo. Santiago, com o seu interior acidentado, remoto e profundamente agrícola, guarda marcas de uma muito mais forte influência africana, bem reflectida, por exemplo, nos seus géneros musicais característicos - batuque e funaná - e também no dialecto crioulo, este muito mais fechado do que nas outras ilhas.

O batuque é, pois, um dos géneros mais representativos do património musical da ilha de Santiago. O seu contexto habitual, em Cabo Verde, são momentos importantes de convívio das comunidades. Festas religiosas, vésperas de casamentos ou baptizados e a recepção de personalidades importantes são algumas das ocasiões melhores e escolhidas para se fazerem batuques e, assim, através dos textos que cantam as mulheres, exprimirem admiração e louvor ou crítica e sátira sobre as pessoas e os acontecimentos que marcam o seu dia-a-dia.

O espaço tradicional do batuque é o terreiro: o pátio interior ou das traseiras da casa em que, pela noite fora, as mulheres se sentam em círculo, com a (s) dançarina (s) no centro, tocando a 'tchabeta' - o pano que enrolado se percute pousado entre as pernas - cantando e dançando até altas horas da madrugada. O espírito e a animação que são criados durante tais acontecimentos vivem de grande alegria e de grande envolvimento colectivo. Normalmente uma cantadeira improvisa longas melodias que falam da vida, das alegrias e das tristezas, louvando ou criticando alguém ou alguma figura conhecida; e o coro das outras mulheres repete as frases cantadas pela solista, numa alternância contínua, que ajuda a subir gradualmente a emoção. O clímax do batuque atinge-se quando a frase entoada pela solista se reduz a uma palavra e o coro responde energicamente, batendo com força nas tchabetas. É nessa altura - chamada 'rabira' - que a (s) dançarina (s) faz (em) a 'dança do torno', exibindo a sua habilidade coreográfica. A assistência que rodeia as batucadeiras e dançarinas presta atenção a tudo - os versos cantados e as danças - e aplaude entusiasticamente as melhores interagindo com o grupo. As actuações coreográficas que mais impressionam são mesmo premiadas com dinheiro dado pela assistência.

O ritmo que se ouve na percussão do batuque é a combinação de dois ritmos base: o 'ban-ban' e a 'rapica' que são feitos por diferentes mulheres. Esquematicamente o 'ban-ban', feito por uma parte das mulheres, pode representar-se assim:

X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X

E a 'rapica', feito pelas restantes, assim:

XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX XX

Uma vez combinados estes dois padrões temos a resultante rítmica que se sobrepõe àqueles dois individualmente. Esquematicamente, o que se ouve, representa-se assim:

XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX XXXXX

Todas as mulheres que formam o Finka-Pé aprenderam o batuque em Cabo Verde durante a sua adolescência segundo o processo tradicional de transmissão oral. A aprendizagem da música e da percussão é feita por imitação nas primeiras vezes em que participam em batucadas. Quanto à dança, é treinada e experimentada entre as jovens quando vão fazer recados fora de casa, longe de quaisquer olhares curiosos, até se sentirem com coragem de se exibir no terreiro.

O Grupo de Batuque Finka-Pé é, no contexto português, um magnífico exemplo de recriação desta tradição musical cabo-verdiana. Nele, não só existe um grande envolvimento das mulheres, como entre elas se encontram excelentes cantoras e dançarinas deste género musical. Por essa razão o Finka-Pé foi já convidado para importantes actuações, como as da EXPO 92 em Sevilha e do ACARTE, entre muitas outras de significativo relevo artístico.

O repertório cantado pelo Grupo é sobretudo baseado em cantigas de batuque de Cabo Verde. No entanto, devido à sua função interventiva, estas cantigas são naturalmente adaptadas - num processo improvisado - em função dos locais onde o grupo actua e das pessoas que estão a assistir. Os temas de grande parte das cantigas interpretadas pelo Grupo Finka-Pé relacionam-se com a difícil condição feminina das suas componentes e com os problemas concretos com que elas tem que se defrontar no dia a dia da sua vida em Portugal.

Resta dizer que o batuque é uma parte integrante da vida de todas as mulheres do grupo Finka-Pé. Foi este o som que marcou a alegria dos momentos importantes da sua vida pessoal e dos seus entes mais próximos: casamentos, baptizados, festas em honra dos familiares, celebração da independência nacional, e todas as outras cerimónias que marcam as pessoas. Para estas mulheres tais momentos foram embelezados por esta força rítmica e por este canto que sai pela boca vindo do coração.