CURSO de AGENTES de INTERLIGAÇÃO

 

Enquadramento

Utilizamos, para enquadramento desta proposta de Curso de Agentes de "INTERLIGAÇÃO", o quadro que definimos no Projecto Dafne, enriquecido com novas reflexões.

Baseámos-nos, igualmente, na evolução que a criminologia percorreu e no texto "A INTERLIGAÇÃO" E A SOCIEDADE DESINTEGRADA. UM QUADRO CONCEPTUAL para um PROJECTO CRIMINOLÓGICO DE PREVENÇÃO, elaborado por Johan Deklerck & Anouk Depuydt, investigadores do Departamento de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de Louvaina e publicado no PANOPTICON de 1997.

Consideramos que a criação do Agente de "INTERLIGAÇÃO", enquadrado nos serviços de proximidade, é uma mais valia para a sociedade portuguesa, na medida em que permite criar um novo perfil profissional como disponibilizar respostas inovadoras a um dos problemas mais difíceis da nossa sociedade actual - a violência.

 

A sociedade em que vivemos

Diariamente somos cercados pela violência através de situações como:

A guerra da Jugoslávia, de Timor, da Tchetchenia, de Angola entrou/a diariamente nas nossas casas banalizando imagens de refugiados, de mísseis, de efeitos colaterais e de outras atrocidades e violações aos direitos humanos;

Os filmes embebidos de violência estão ao alcance das crianças na TV e nos vídeos;

Os jogos em CD-ROM nos PC's incentivam as crianças a matar sem qualquer escrúpulo.

A agressividade nos transportes públicos, no trânsito é já tão "normal" que mal nos lembramos do que foi o trânsito há 30 anos e a liberdade de circular nas ruas livremente.

A "agressividade" das empresas multinacionais que em nome do lucro fácil, nos confrontam com uma psicose da alimentação industrial e transgénica (são as vacas loucas, os frangos, o milho "transgénico".) Assim, a sociedade estimula sobretudo valores de competição, em detrimento de valores de solidariedade e partilha.

 

A nossa pessoa

A agressividade que existe dentro de nós é um factor com o qual temos de aprender a viver. Poucos são os programas escolares ou os programas de formação que nos ensinam a viver e a lidar de forma efectiva e equilibrada com essa nossa agressividade. Sem esta aprendizagem é fácil que a agressividade se torne e/ou se traduza em actos de violência de todo o tipo, reflexo bem evidente da sociedade em que vivemos.

 

A situação específica das minorias étnicas em Portugal

Os migrantes que vieram para Portugal têm perante este quadro mais dificuldade em procurar uma resposta de 'sobrevivência' e principalmente de integração.

Contratos a prazo, situações de ilegalidade, insegurança e acidentes frequentes na construção civil e nas limpezas, confronto com uma cultura diferente, ausência do apoio estabilizador dos pais e avós que ficaram nos países de origem, preocupações com familiares que vivem as consequências das guerras em Angola, Guiné-Bissau, são alguns dos factores que incentivam uma fuga no consumo e posterior abuso de álcool e drogas, com as inevitáveis e conhecidas consequências nos dinamismos pessoais e sociais, aumentando a delinquência infantil e juvenil.

 

Evolução na criminologia

Para o enquadramento do Curso de Agentes de "INTERLIGAÇÃO" baseamo-nos também nas constatações que surgem, ao reflectirmos sobre a " Evolução na criminologia". Esta, grosso modo percorreu 3 fases na resposta dada ao 'crime' :

1ªfase: Durante muitos anos procurava-se a (melhor) maneira de punir o agressor, usualmente através da punição judicial, havendo pouco interesse pela vítima, nem tendo oportunidade desta se pronunciar ou ter um papel activo num processo que, afinal, lhe dizia directamente respeito.

2ªfase: A partir dos "anos 60", a preocupação em apoiar a vítima aumentou e várias medidas e organizações centraram a sua actuação num trabalho de 'Apoio à Vitima', criando-se as Casas de Acolhimento, isolando-se temporariamente a vítima do ambiente agressivo, mas sem se intervir nele.

3ªfase: Neste momento aposta-se sobretudo num trabalho de Mediação entre a Vítima e o Agressor. Esta opção surgiu baseada nas seguintes constatações:

Os agressores foram, eles próprios, muitas vezes vítimas - (existência de um ciclo de violência ao longo da vida);

Uma investigação feita na Bélgica revelou que 80% das mulheres que estiveram em casas de Abrigo para mulheres maltratadas, voltam a viver com o companheiro, que as agrediu - havendo normalmente revitimização;

As que não voltam, muitas vezes precisam de contactar com o ex-companheiro, pois algumas possuem filhos ou bens em comum;

As vítimas têm normalmente muita dificuldade em superar a sua situação se não tiveram a oportunidade de se confrontar com o agressor. Em geral continuam obcecadas com questões como: porque é que ele me fez isto? Qual foi o seu motivo? Ele não percebe as minhas mágoas? Porque é que ele me queria ofender tanto?

 

O jardim do Templo Ryoan-ji em Kyoto (Japão), Séc. XV.
Existem 15 rochas, colocadas na areia branca em grupos de 2 ou 3. Não é possível ver todas as rochas ao mesmo tempo, independentemente da posição em que se puser.
Numa das interpretações ZEN, este jardim tem todo o sentido, considerando a contradição inerente a toda a tentativa de se apreender a totalidade num só olhar. Se se pretender ver as outras rochas, a pessoa tem de se deslocar, mas fazendo isto, vai ter que renunciar de uma perspectiva para ver a outra.

 

É claro que o tipo de mediação é diferente, dependendo da gravidade do mesmo - se se tratar de pequenos delitos, o "confronto" entre vítima e agressor pode ser efectuado rapidamente, implicando uma estrutura mais facilitada. Se se tratarem de problemas graves, o mediador terá de preparar o encontro entre a vítima e o agressor de uma forma mais cuidada e reflectida. Inicialmente com cada um em particular, só se realizando o encontro se os dois estiverem de acordo.

 

Alto da Cova da Moura

É uma comunidade grande com aproximadamente 6000 moradores. Os habitantes vivem confrontados com problemas graves: desemprego, trabalho rude, instável e precário, vencimentos pagos com atrasos (ou nunca pagos sobretudo aos habitantes indocumentados. Uma comunidade que vive em casas encostadas umas às outras, onde se partilha muito, sem se querer. A privacidade é muito limitada. Por falta de espaços e de jardins, que permitam a privacidade, os vizinhos interferem em conversas e discussões que pertencem exclusivamente à família, envolvendo-se em questões às quais são alheias.

O abuso do álcool é muito frequente. As tascas crescem como "cogumelos" em todas as ruas do bairro. Também, entre portas, mais escondido, ela se verifica pelas mulheres.

Os casos de maus tratos ou violência doméstica exercida contra mulheres e crianças é bastante frequente, dadas as condições de precariedade em que as pessoas "sobrevivem".

Os filhos dificilmente conseguem deixar de reproduzir a violência de que eles próprios foram vítimas, constatando-se que a ausência de referências/modelos positivos "empurram" estas crianças e jovens para um ciclo de violência de difícil quebra e/ou retorno.

A maioria das pessoas que vivem neste bairro não têm acesso aos Gabinetes de "INTERLIGAÇÃO" existentes. A distância financeira ou psicológica é grande demais.

 

PROPOSTA de RESPOSTA:
a formação de Agentes de "INTERLIGAÇÃO"

No Bairro Alto da Cova da Moura existem muitas pessoas, sobretudo mulheres, que trazem consigo uma grande dose de conhecimentos 'ancestrais' em 'mediação informal' das situações de conflito s .

Na Associação Moinho da Juventude, do bairro do Alto da Cova da Moura colaboram adultos com uma capacidade enorme de apoio aos vizinhos e aos colegas que estão confrontados com situações de agressão. Sabem, de um modo espontâneo, o momento certo da necessidade de intervenção, sabem 'intuitivamente' os períodos e tempos em que se devem distanciar, sabem identificar os actos de violência inaceitáveis e estão conscientes da necessidade de respeitar a vítima e o agressor. São 'mediadores informais'.

 

No dia 27 de Maio de 1992, uma granada explodiu no meio duma fila de pessoas em frente duma padaria, na rua de piões de Vase Miskina, em Sarajevo, fazendo 22 mortos.
O violoncelista Vedran Smailovic, membro do Orquestra do Ópera de Sarajevo, a partir daquela data, todos os dias às 4 horas da tarde, passou a ir, em smoking, ao local para tocar em memória das vítimas, indiferente aos tiros de morteiro e metralhadora e ao perigo dum novo ataque duma granada.
A descrição deste acto heróico por parte dum músico teve mais impacto do que qualquer declaração feita por um 'alto' político.

 

 

Apercebem-se, ao mesmo tempo, que existem muitos conhecimentos e competências, que não aprenderam nem adquiriram, que os podem ajudar a reflectir duma maneira crítica sobre as suas atitudes, as suas intervenções e fornecer "ferramentas" necessárias para mais facilmente intervirem.

Apercebem-se igualmente que a participação num Curso "formal" lhes dará "um estatuto" que lhes poderá facilitar a sua intervenção como Agentes de "INTERLIGAÇÃO".

Para tal será indispensável a coordenação e acompanhamento do trabalho dos Agentes de "INTERLIGAÇÃO" por Consultores e/ou Formadores/Orientadores.

 

PROPOSTA de CURRICULUM do
CURSO de FORMAÇÃO de AGENTES de "INTERLIGAÇÃO"

CONTRATO de FORMAÇÃO

Apresentação dos formandos e formadores

1

Apresentação do curso

1

Negociação do contrato

1

DESENVOLVIMENTO PESSOAL

Percurso pessoal e profissional. Avaliação de conhecimentos e competências pessoais

12

Desenvolvimento de auto-estima e auto-confiança

9

Desenvolvimento de auto-crítica

9

DESENVOLVIMENTO SOCIAL

A nossa perspectiva pessoal sobre a sociedade

3

O Poder político e económico na sociedade

6

O fenómeno da migração.

6

Cultura e culturas

6

QUADRO TÉORICO para a "INTERLIGAÇÃO"

A perspectiva contextual de Boszormeny-Nagy:

• as 4 dimensões

• 'lealdade'

18

A teoria da interligação

15

Empowerment

12

Fundamentos e definição da mediação

21

INSTRUMENTOS para o DIAGNÓSTICO DINÂMICO de situações problemáticas

Diagnóstico(s) de violência (doméstica): causas directas e causas indirectas.

15

A procura das suas causas fundamentais.

Os problemas de alcoolismo

Os problemas de traumas de guerra

Diagnóstico(s) de abusos sexuais.

6

INSTRUMENTOS para a MEDIAÇÃO

A comunicação como base de trabalho do Agente de Mediação

15

Como enfrentar Preconceitos

9

Como lidar com sentimentos de culpa

9

Como lidar com traumas de infância, com traumas de guerra

9

A gestão de conflitos

15

Cultivar a capacidade de empatia - Jogo de papeis

9

A gestão das emoções (utilizando a caixa de emoções)

9

INSTRUMENTOS para o ENCAMINHAMENTO

Área de trabalho e definição dos limites da intervenção dos Agentes de "INTERLIGAÇÃO".

3

Reconhecimento dos mecanismos de eficiência, de manipulação e de atraso no tratamento dos processos nos Serviços

3

Encaminhamento para os Serviços Sociais

3

Encaminhamento para os Serviços de Saúde físico e mental

3

Encaminhamento para Programas de Formação

3

Encaminhamento para Programas de Inserção laboral

3

Encaminhamento para o Instituto de Reinserção Social

3

Encaminhamento para Serviços Jurídicos

3

ESTÁGIO

Na comunidade ou em instituições

15

AVALIAÇÕES

Avaliação dos Formandos

3

Avaliação dos formadores e consultores

3

Avaliação pela comunidade

3

ACOMPANHAMENTO no TRABALHO

Acompanhamento colectivo

60

Acompanhamento individual

18

 

SELECÇÃO DOS CANDIDATOS:

Reconhecimento pela comunidade como sendo uma pessoa com capacidade para ouvir, com abertura para aprender, respeitado e respeitando os outros.
Entrevista.
Grelha de avaliação de atitudes.

 

FINANCIAMENTO:

CMA
Min. da Igualdade

 

PROMOÇÃO E ORGANIZAÇÃO do CURSO

Associação Cult. Moinho da Juventude.

 

CONDIÇÕES:

2ª, 4ª e 6ª feira das 18h às 21h
2 Sábados por mês das 10h às 13h e das 14h às 17h

 

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