Desenvolvimento sócio-local para o Empowerment

Construímos, nós próprios, as nossas casas no Alto da Cova da Moura, um bairro da Amadora, na fronteira de Lisboa onde residem mais de 6000 habitantes, metade com menos de 20 anos. A maioria da população é de origem africana.

A construção das casas foi feita à noite e durante os fins de semana, depois do trabalho nas empresas de limpezas, nas casas dos patrões, nas 'obras'. Num "djunta mon", num juntar das mãos.

A construção das casas, os moradores aprenderam nas 'Obras' como serventes. Os sonhos ajudaram a traçar as linhas da cozinha, dos quartos. Tudo feito sem arquitecto ou engenheiro.

Estamos conscientes que muitas casas têm deficiências, que com um mínimo de apo

io podiam ter sido evitadas. Estamos conscientes que, com apoio, os alicerces podiam ser mais seguros, as divisões mais adaptadas. Falharam estes apoios ou foram insuficientes.

São os moradores do Alto Cova da Moura que cultivam as hortas, nas bermas das estradas ao pé da Força Aérea em Alfragide. Apesar de todas as dificuldades, crescem couves, ervilhas, milho, abóboras e favas. Têm os conhecimentos sobre o melhor período de semear, aprenderam ao longo dos anos a composição e as característas da terra Lisboeta e sabem ensinar a quem quer iniciar-se na agricultura.

Foram os moradores que construíram aos poucos, consoante as possibilidades, a sede da Associação Moinho da Juventude e foram eles que delinearam os seus projectos e actividades. No início, com recursos muito limitados, contámos com o trabalho voluntário dum engenheiro que fez os cálculos certos para a construção dos alicerces. Numa fase posterior, o apoio do FEDER permitiu pagar um Mestre de Obras. Ele ensinou aos jovens do bairro a aprendizagem dos cálculos, do desenho, das técnicas para construir o seu 'Espaço'. Esta aquisição de conhecimentos contribuiu para que os jovens melhorassem o seu próprio habitat.

São alguns exemplos para concretizar o que queremos dizer com 'empowerment'.

Consideramos 'Empowerment' o processo de indivíduos e grupos locais ou comunidades que vão desenvolver as suas capacidades e vão adquirir o poder de uma participação activa

  • para terem mais influência ou para serem capazes de enriquecer as suas vidas e a sociedade em que vivem,
  • para aumentar as suas capacidades de modo a poderem tomar decisões, duma maneira independente, sobre o que influencia a sua vida e de modo a ter influência nas pessoas que decidem sobre eles numa aprendizagem crescente deles próprios.

Mas empowerment não tem só a ver com o processo de construção e desenvolvimento de capacidades, mas também com problemas estruturais : a constelação política, a dominância cultural, relações sociais.

Pretendemos que pouco a pouco cresça a disponibilidade das autoridades para terem ouvidos e olhos para as capacidades e reflexões dos moradores.

Para exemplificar: Há pouco tempo, as autoridades locais arranjaram uma das ruas do bairro, mas esqueceram-se de falar com os moradores. Se o tivessem feito, ter-se-iam apercebido da existência de muitas crianças que brincam e passam naquela rua e da necessidade de lombas para travar a velocidade dos carros. Já houve um acidente, e esperamos que não precisemos de muitos mais, para que tomem as medidas necessárias/esquecidas.

A estigmatização que pesa sobre o bairro dificulta o processo do empowerment. A rotulação constante do nosso bairro como sendo perigoso, um bairro onde floresce o crime, a venda de droga e prostituição, influencia negativamente a população. A rotulagem já fez interiorizar alguns sentimentos de culpa e de rejeição nos próprios moradores.

Não obstante as habitações débeis e as infra-estruturas deficientes do bairro, os moradores construíram ao longo dos anos uma comunidade, com uma riqueza de manifestações culturais, de criação de postos de trabalho, interajuda, solidariedade - Eles estiveram com um grupo de 15 jovens, mulheres e homens em frente da delegação das Nações Unidas, com tambor e bandeiras, quando chegaram as primeiras notícias das atrocidades em Timor, para exigir a intervenção das tropas da Paz.

É preciso que os orgãos públicos reconheçam este valor comunitário, tantas vezes inexistente nos bairros de realojamento ou nos bairros da classe média/alta, apoiando a população na reabilitação do seu bairro.

Empowerment tem a ver com capacidades de reflexão, de cooperar com outros, com a capacidade de tomar decisões duma maneira consciente e reflectida.

Não é fácil este processo, porque a nossa sociedade faz um constante apelo à alienação e concentração do poder. Quem está no poder, gosta de mostrar os seus galões.

Optamos na Associação Moinho da Juventude por fertilizar o desenvolvimento das capacidades dos moradores. Damos prioridade ao trabalho que estimula a participação e envolvimento dos moradores e consideramos estudos e investigações 'sobre' a população como secundários e muitas vezes inoportuno. Privilegiamos o processo da aprendizagem social dos moradores através da concretização dos seus projectos.

O empowerment é suportado por 4 traves mestras : 'acção', 'reflexão sobre a acção', 'a comunicação' e por último a trave mestra da 'negociação'.

O Moinho da Juventude tem uma cornucópia de projectos e acções, mas queremos focar a Formação de Mediadores, o nosso Projecto Integra, subsidiado pelo FSE para ilustrar como preenchemos este empowerment a nível das 4 traves.

A estratégia do projecto 'Formação de Mediadores' assenta na formação de líderes locais, em geral jovens com poucas habilitações literárias mas com potencialidades latentes, que dentro do sistema existente não tiveram o devido estímulo da sociedade de acolhimento para se desenvolver.

A metodologia de base esteve relacionada com o princípio da Aprendizagem Interactiva, em que o ensino/aprendizagem/formação funciona nos dois sentidos. Desta forma a mais valia do curso não se destinava exclusivamente aos formandos, mas também aos formadores, que descobriram novos valores culturais, atitudes, conhecimentos.

O curso desenvolveu-se numa estreita interligação entre prática e teoria, acção e reflexão. Muitos dos formadores aprenderam durante este processo de formação a capitalizar as próprias experiências dos formandos.

Durante o curso de formação utilizaram-se metodologias de 'empowerment', nomeadamente: o 'Planning for Real', o 'Silent Way' e a metodologia DIP.

O 'Planning for Real' fornece instrumentos para valorizar capacidades existentes, dos moradores do bairro, para planear acções e proporciona técnicas de negociação.

A metodologia DIP é um instrumento excepcional a nível de reflexão conjunta e aprofundada de todos os envolvidos num problema.

Todo o processo da formação foi acompanhado por uma avaliação contínua entre formandos, formadores e coordenadores do projecto. A avaliação contínua permitiu um reajustamento dos objectivos e metodologias durante as várias fases do projecto.

Todas as actividades compreenderam também uma responsabilização individual e de grupo na óptica da integração dos jovens formandos no mundo do trabalho, numa nova profissão que tinha e continua a ter de conquistar as suas credenciais nesta sociedade. Foi um processo de negociação com as autoridades, que através da publicação do Despacho 304/98 de 24.4.98 no Diário da Republica, deu um primeiro impulso ao reconhecimento do curriculum e perfil dos Mediadores, um novo Serviço de Proximidade, aqui em Portugal.

O testemunho da Denise, uma das formandas do Curso, agora a trabalhar como Mediadora na Escola básica nº 3 da Buraca, esclarece com mais enfase o que dizemos.

Centro Cultural de Belém 21 de Setembro 1999

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